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A Nova sala de aula ou o aluno como protagonista?

No Brasil, a pesquisa e a publicação de trabalhos de cunho cientifico cresceu de forma exponencial, porém as publicações possuem pouco impacto no meio acadêmico. As teorias científicas e as técnicas de pesquisa usadas estão ultrapassadas ou são usadas de forma errada – na maioria das vezes.

Essa afirmação é respaldada pela classificação do Brasil no Nature Index Global de 2017, criado pela revista Nature. Nele, o país ocupa a 23º posição quando se considera somente o número de artigos publicados, mas quando se analisa a qualidade das produções ficamos com menos de 2% dos trabalhos de impacto (que servem de referência para outros pesquisadores). Temos pesquisa e muitas publicações, entretanto, pouca qualidade e rigor científico no processo de produção de “conhecimento novo”.

Esses dados são um reflexo do modelo de ensino superior implantado no Brasil. Teoricamente ele tem por base o tripé ensino, pesquisa e extensão, mas a maioria das IES brasileiras enfatiza-se o ensino em detrimento das outras duas bases do tripé. Essa forma de ensinar garante o protagonismo do professor no processo de ensino/aprendizagem, mas não permite ao aluno desenvolver todas as suas potencialidades.

É fato que hoje vivemos em uma sociedade onde o acesso a informação é universal, entretanto, informação não é conhecimento. “Saber o que está acontecendo” não é o mesmo que conhecer a realidade concreta. Para conhecer é necessário discutir, refletir e analisar as várias perspectivas nascidas da informação dada. Neste sentido informação pode ser definida como um conjunto de dados com “valor agregado”, mas se apresentados isoladamente não contém um significado claro. Informação pode ser definida, seguindo esse raciocínio, como um conjuntos de letras, números ou dígitos que se transformam em conhecimento se forem analisados e discutidos da forma correta e por pessoas qualificadas.

O modelo de ensino flipped classroom (também chamado de Sala de Aula Invertida), atualmente em fase de implantação na Estácio, é uma ferramenta inovadora que bem utilizada, pode transformar o processo de ensino/aprendizagem tornando a experiência de aprender em algo desafiador, e por isso mesmo, capaz de mudar a definição de ensino e aprendizagem do aluno.

Isso é possível porque o modelo diminui o protagonismo do professor em sala de aula e transfere uma parte da responsabilidade da construção do conhecimento para o aluno. O professor deixa de ser uma fonte de informação e passa a ser uma das variáveis “usadas” pelos alunos para produzir conhecimento a partir da análise das diversas variáveis que o cerca no processo de estudar e aprender.

Ao invés do aluno se adaptar à forma do professor ensinar, o professor deve perceber as diferentes características dos estudantes e a partir dessa percepção fazê-los discutir, analisar e refletir sobre o conhecimento adquirido em sala de aula. Essa forma de ensinar obriga o aluno a buscar conhecimento, a discutir teorias e conceitos antes de ir para a sala de aula. Durante as aulas o professor não mais transmite conhecimentos, ele discute, tira dúvidas e amplia a visão do estudante sobre determinada temática.

Todavia, essa forma de aprender e ensinar ainda é vista com desconfiança por um número grande de professores. Creio que duas premissas ajudam a explicar o porquê da desconfiança:

  1. a) A maioria dos professores foi “ensinado” a aprender e/ou decorar teorias, técnicas e conceitos, todavia, não lhes foi ensinado a aplicá-los em campo e;
  2. b) O protagonismo do estudante, buscando conhecimentos e fazendo analises antes de ir para a sala de aula pode demonstrar a falta de conhecimento ou a desatualização do professor sobre determinado tema.

O protagonismo do aluno “obriga” o professor a estudar e participar de eventos científicos com o objetivo de sempre permanecer atualizado sobre as discussões que estão acontecendo na sua área do saber. Esse incentivo, mesmo que “forçado”, pode ter um efeito colateral benéfico para a IES e para o estudante: a participação em eventos científicos pode estimular o professor a fazer pesquisas associadas ao ensino, potencializando o processo educacional em todos os níveis, inclusive no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), pois a pesquisa associada ao ensino é um dos objetivos presentes nos projetos pedagógicos dos cursos.

Entender e aceitar essa nova forma de aprender e ensinar é uma condição dada pela revolução dos meios de comunicação. Cada vez mais nossos alunos terão acesso a informações e buscarão transforma-las em conhecimento. É essa certeza que nos leva a afirmar que a sala de aula e o professor devem ser a ferramenta facilitadora desse processo.

Para transformar informação em conhecimento é necessário debate, discussões e metodologias ativas ligadas binômio ensinar e aprender. Não há mais aluno passivo. Aceitar essa realidade significa, em última instância, aproveitar uma ótima oportunidade de aprender e/ou ampliar conhecimentos novos. Ensinar algo novo para o aluno e ser reconhecido por isso é gratificante – e aceitar que ele pode nos ensinar também é.

Dividir a ribalta não significar perder o protagonismo, significar simplesmente aceitar que existem outros atores no palco que possuem capacidade de participar do espetáculo como protagonistas. 

 

 

Sobre o Autor

Gabriel Nava Lima

Graduado em Administração e História, mestre em Ciências Sociais e doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional. É professor na Faculdade Estácio São Luís nos cursos de Administração, Biomedicina, Direito, Ed. Física, Nutrição e Psicologia.