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Tecnologia e empregabilidade: o que o "VAR*" tem a nos ensinar?

Evolução tecnológica e Copa do Mundo. Tem alguma lição para tirarmos disso?

Quando o assunto é tecnologia, seja no LinkedIn, Facebook, Twitter... ou até em ambientes mais analógicos (risos internos), como nas minhas aulas ou em uma mesa de bar, a empregabilidade sempre desponta como um dos temas que mais ganham relevância, junto com privacidade e outras questões éticas interessantes que não caberão neste texto.

Entre os argumentos mais fáusticos*, a tese em que a tecnologia rouba os empregos de todos nós está, com certeza, no Top Ten. Hollywood, Netflix e o nosso imaginário fizeram com que ficasse fácil ilustrarmos um futuro onde robôs e máquinas nos substituiriam daqui a algum tempo, e em alguns casos (mais apocalípticos) nos dizimariam ou reduziriam nossa existência a uma escravidão eterna.

Por mais que eu tenha insistido em um ponto de vista (pelo menos) um pouco mais positivo a respeito da evolução tecnológica, confesso que é difícil ilustrar e tornar mais fácil a compreensão de um cenário humanizado diante de uma evolução tão "blackmirrorizada". Como bom amante da Copa do Mundo, assisti a quase todos os jogos e acompanhei as resenhas e discussões a respeito dos jogos e, claro, sobre a utilização da nova tecnologia de vídeo utilizada para auxiliar na arbitragem. E foi no jogo entre França e Austrália, na primeira vez em que o recurso foi utilizado com sucesso, que eu percebi algo que poderia me ajudar nessa missão.

Ao observar a "VOR" (Sala de Operação de Vídeo), percebi a quantidade de árbitros e especialistas presentes na mesma. E, instantaneamente, pensei: "É isso! Esse é o novo exemplo que vou utilizar em palestras, consultorias, treinamentos, aulas...". Estava ali, transmitida para o mundo inteiro, a imagem que comprovava que a tecnologia não roubaria nossos empregos, obrigatoriamente. A tecnologia poderia gerar mais empregos, inclusive (Eu sei que esse não é o primeiro exemplo, eu também sei sobre o UBER... Mas concordam que é muito representativo?).

Porém, nada é tão simples quanto aquilo que o olho pode ver. Após presenciar aquele momento histórico para o futebol, eu comecei a pensar melhor e cheguei a uma conclusão: não seria possível me basear neste argumento para falar sobre habilidades e competências para um futuro tecnológico, me apegando a uma imagem, por mais emblemática que seja, pois eu deixaria uma característica fundamental de fora dessa discussão: a invisibilidade dos atores e dos recursos.

Quem disse que não havia pessoas analisando vídeos de lances polêmicos anteriormente? Quem disse que já não havia câmeras em pontos estratégicos? Quem disse que é assim que o jogo funciona? Se eu fosse comparar minha expectativa de adolescente frente aos filmes e shows de ficção, eu me decepcionaria com os robôs que nos cercam hoje. Eles não têm metralhadoras acopladas ou uma interface que simula expressões visuais humanas, nem mesmo tocam músicas de acordo com o que estão sentindo ou pensando (sempre quis ser amigo do Bumblebee), mas eles já estão no nosso cotidiano. Eles são invisíveis, são algoritmos que transformam nossa experiência com o mundo e, pasmem, a mudança radical que eles realizam não é como nos filmes, mas é radical.

Quando Henry Jenkins escreveu sobre a cultura da convergência, e publicou em 2009, ele tinha uma forte preocupação com a mídia; quando Eli Pariser escreveu sobre o que chamou de "O Filtro Invisível", em 2011, ele tinha preocupação com os rumos sociais e da política global. Mas a cultura da convergência no trabalho e o filtro invisível das skills exigidas no mercado ainda estão sendo descobertos. Assim como os meios e plataformas passaram a coexistir, acumular funções e se especializar, nós, seres humanos deveremos fazer com a tecnologia que nos cerca. Os robôs podem nos substituir e até escrever algumas obviedades como as citadas aqui, mas agora e no futuro próximo, é da coexistência com estas entidades tecnológicas que vamos tirar nosso know-how, é na relação com a tecnologia que vamos encontrar novas formas de fazer o que já era feito ou de fazer algo que nunca foi feito antes.

A invisibilidade dos recursos tecnológicos também influencia na nossa visibilidade. Uma sala cheia de árbitros lidando com tecnologias de vídeo é um ótimo exemplo para muitas coisas. Mas não podemos nos esquecer das pessoas que não aparecem em uma transmissão global como essa, ou até daquelas que não aparecem nunca. São cientistas de dados, analistas de marketing digital, designers de interface, desenvolvedores, pesquisadores, professores, alunos... São pessoas. Algumas, sim, afetadas negativamente pelo impacto tecnológico, mas com uma maré de novas chances de aprimorarem e de criarem artefatos, serviços e até mesmo oportunidades, que chegarão até outras pessoas.

Sobre o Autor

Diogo Duarte Rodrigues

Diogo Duarte é mestre em Ciência da Informação, especialista em Design Digital e bacharel em Publicidade e Propaganda pela UNESA. Atualmente é professor universitário e atua em gestão acadêmica, consultoria e capacitação em gestão infocomunicacional.